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EMÍLIA MATOS E SILVA

Pintura e Retrato

Óleo, Acrílico, Pastel, Carvão

E-mail:milamatosilva@gmail.com

tlm: 916790023

quarta-feira, 23 de setembro de 2015



óleo s/ tela Emília Matos e Silva " Quadrado Magico III ( 400 mm x 400 mm) p. venda


"Há no universo dois elementos, o infinito ou indeterminado, e o finito e determinado, e um terceiro, formado pela mistura dos dois, e acima deles um quarto, a causa criadora. Pertence ao infinito tudo o que admite o mais ou o menos, como o mais quente e o mais frio, que não podem ser limitados sem perecerem. Pertence ao finito tudo aquilo que admite o número e a medida, como o igual, o duplo... Quanto à causa, é aquilo que confere a existência a todas as coisas."

Diálogos IV - Platão






óleo s/tela Emília Matos e Silva " A verdade está na luz" (500 mm x 400 mm) p. venda

Deus significa luz; ser filho de Deus é, pois, ter origem na luz. Esta é uma metáfora que utilizavam os essénios do Qumran. Designa uma energia interior que ultrapassa a experiência da pessoa e o conceito de pessoa.

excerto de "Contemplação Carinhosa da Angústia" de Agustina Bessa-Luís


 óleo s/tela Emília Matos e Silva - Quadrado Mágico I (300mm x 300 mm) p.venda



Pitagoras






óleo s/tela


óleo s/tela Envolvência I (800 mm x 690 mm) p.venda


A horas flébeis, outonais -
Por magoados fins de dia -
A minha Alma é água fria
Em ânforas d'Ouro... entre cristais...

.

Mário de Sá-Carneiro, em "Indícios de Oiro"

óleo s/tela (1000 mm x 710 mm) p.venda

Só o amor e a arte tornam a existência tolerável


em a "A Servidão Humana", de Somerset Maugham 

terça-feira, 21 de abril de 2015






óleo s/tela Emília Matos e Silva ( colecção particular)

Nada

nem o branco fogo do trigo
em as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença

Não colecciones dejectos o teu destino és tu

Despe-te
não há outro caminho


Eugénio de Andrade, em "Véspera da Água"

sexta-feira, 3 de abril de 2015




pintura a pastel Emília Matos e Silva ( 590mm / 410mm) 80 €

SONETO ANTIGO

Responder a perguntas não respondo. 
Perguntas impossíveis não pergunto. 
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando. 

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.

Cecília Meireles

sábado, 28 de março de 2015




desenho de modelo a sepia Emília Matos e Silva (390 mm/ 300 mm)

A Mulher

Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura

e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.

Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluída, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível. 

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

quinta-feira, 26 de março de 2015





óleo s/tela Recta Final (colecção particular) 

A vida é uma longa caminhada 

Algumas vezes o percurso é fácil, através de belos caminhos espaçosos, planos e floridos. Caminhamos alegremente, acompanhados pelos nossos entes queridos.
No início da viagem tudo parece mais fácil e desejamos com ansiedade a feliz realização, no final do percurso. Parece-nos que só falta um bocadinho, que é já ali que se concretiza o nosso sonho. 
Depois o caminho começa a ser acidentado e temos de ser nós a desbrava-lo necessitando afastar silvados que nos deixam marcas dolorosas na pele. Por vezes, temos de nos equilibrar à beira de precipícios, agarrando-nos a escarpas e raízes para não cair no fundo do abismo.
Não nos é permitido parar para descansar um pouco da fadiga da viagem A vida obriga-nos a seguir em frente sempre quer queiramos ou não. À medida que vamos caminhando, menos forças temos para subir a pulso os escolhos que nos surgem no caminho, menos força temos para afastar os espinhos dos silvados bravios e o que queríamos era poder parar.
O cansaço é tão grande e não se vê nenhum horizonte à vista.

 pintura e texto de Emília Matos e Silva

sábado, 21 de março de 2015






óleo s/tela Emília Matos e Silva (colecção particular)


HORA ABSURDA

O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas,teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...

Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia...,e entanto
Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte...

Abre todas as portas e que o vento varra a ideia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida p'la maré cheia,
E a minha ideia de te sonhar uma caravana de histriões...

Chove ouro baço, mas não no lá-fora...É em mim...Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...

Hoje o céu é pesado como a ideia de nunca chegar a um porto...
A chuva miúda é vazia...A Hora sabe a ter sido...
Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!...Absorto
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...

Todas as minhas horas são feitas de jaspe negro,
Minhas ânsias todas talhadas num mármore que não há,
Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro,
E a minha bondade inversa não é nem boa nem má...

Os feixes dos lictores abriram-se à beira dos caminhos...
Os pendões das vitórias medievais nem chegaram às cruzadas...
Puseram in-fólios úteis entre as pedras das barricadas...
E a erva cresceu nas vias férreas com viços daninhos...

Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
De longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...

O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudade de si ante aquele lugar-Outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...

A doida partiu todos os candelabros glabros,
Sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas...
E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos candelabros...
E que querem ao lago aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?...

Por que me aflijo e me enfermo?...Deitam-se nuas ao luar
Todas as ninfas... Veio o sol e já tinham partido...
O teu silêncio que me embala é a ideia de naufragar,
E a ideia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido...

Já não há caudas de pavões todas olhos nos jardins de outrora...
As próprias sombras estão mais tristes...Ainda
Há rastos de vestes de aias (parece) no chão, e ainda chora
Um como que eco de passos pela alameda que eis finda...

Todos os ocasos fundiram-se na minha alma...
As relvas de todos os prados foram frescas sob meus pés frios...
Secou em teu olhar a ideia de te julgares calma,
E eu ver isso em ti é um porto sem navios...

Ergueram-se a um tempo todos os remos...pelo ouro das searas
Passou uma saudade de não serem o mar...Em frente
Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente...

Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!
Todas as princesas sentiram o seio oprimido...
Da última janela do castelo só um girassol
Se vê, e o sonhar que há outros põe brumas no nosso sentido...

Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Por que não há de ser o Norte e Sul?... O que está descoberto?...

E eu deliro... De repente pauso no que penso...Fito-te...
E o teu silêncio é uma cegueira minha...Fito-te e sonho...
Há coisas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua ideia sabe à lembrança de um sabor de medonho...

Para que não ter por ti desprezo? Por que não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore...O teu silêncio é um leque -
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...

Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos....
Murcharam mais flores do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncio eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...

Alguém vai entrar pela porta...Sente-se o ar sorrir...
Tecedeiras viúvas gozam as mortalhas de virgens que tecem...
Ah, o teu tédio é uma estátua de uma mulher que há-de vir,
O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem...

É preciso destruir o propósito de todas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras,
Endireitar à força a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...

Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã – como nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...

Suave, como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,
E o meu saber-te a sorrir é uma flor murcha a meu peito...

Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia baptismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro este lema… Vitória!

O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei...Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...

Fernando Pessoa

quarta-feira, 18 de março de 2015






Nardos, óleo sobre tela (colecção particular)


Segundo o Zohar « aquilo que vem da árvore do conhecimento, traz consigo a dualidade». Os frutos do amor e da ira, da luz e das trevas, da eternidade e do tempo.
  

O Museu Hermético, Alquimia & Misticismo, Alexander Roob

segunda-feira, 16 de março de 2015


Mulher/Mãe

pintura óleo s/tela (810 mm x 650 mm) 160 €




Pão e um gole de leite são vitórias! 
Um quarto quente: uma batalha vencida! 
Para te fazer crescer 
Devo combater dia e noite.

Bertolt Brecht

domingo, 1 de março de 2015

Quando vier a Primavera






















pintura a pastel ( 590 mm x 410 mm) 90 €

Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

poema de Alberto Caeiro heterónimo de Fernando Pessoa

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015




Alma e Realidade, Duas Paisagens Sobrepostas 



Acrílico s/papel Emília Matos e Silva (300 mm x 230 mm) 25€

"...Todo o estado de alma é uma paisagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E - mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem - pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser "Há sol nos meus pensamentos", ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes."


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015






desenho Emília Matos e Silva (colecção particular)

Grava-me como selo em teu coração,
como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor,
implacável como o abismo é a paixão;
os seus ardores são chamas de fogo,
são labaredas divinas.

Nem as águas caudalosas conseguirão
apagar o fogo do amor,
nem as torrentes o podem submergir.
Se alguém desse toda a riqueza de sua casa
para comprar o amor,
seria ainda tratado com desprezo.



Cântico dos Cânticos 8, 6 e 7

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015


A ilusão é um erro dos sentidos ou da inteligência que faz tomar a aparência pela realidade.



óleo s/ 3 telas Involvência III Emília Matos e Silva (colecção particular)


A ilusão é um erro dos sentidos ou da inteligência que faz tomar a aparência pela realidade.
A quimera, tanto pode ser um monstro fabuloso formado de diferentes partes de animais, como algo de fantástico em que se toma a fantasia como realidade.
A fantasia tanto pode ser imaginação criadora como ficção.
A realidade é a qualidade do que é real, do que existe de facto.

«Dicionário Prático Ilustrado, Jaime de Séguier, Lello & Irmão, 1955»


Dado que a ilusão é um erro, o certo é deixar de lado as miragens e viver de acordo com o que é real e existe de facto. 

domingo, 1 de fevereiro de 2015





óleo s/tela de Emília Matos e Silva (colecção particular)

Põe-me as mãos nos ombros...


Põe-me as mãos nos ombros...
Beija-me na fronte...
Minha vida é escombros,
A minha alma insonte.

Eu não sei por quê,
Mas desde onde venho,
Sou o ser que vê,
E vê tudo estranho.

Põe a tua mão
Sobre o meu cabelo...
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015



óleo s/tela de Emília Matos e Silva  (colecção particular)

 Entre o sono e sonho


Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre
— Esse rio sem fim.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro

terça-feira, 27 de janeiro de 2015





óleo s/tela em cartão Emília Matos e Silva (500 mm x 700 mm)

Por vezes à noite há um rosto
Que nos olha do fundo de um espelho
E a arte deve ser como esse espelho
Que nos mostra o nosso próprio rosto

Jorge Luis Borges em "Arte Poética

domingo, 25 de janeiro de 2015





óleo s/tela Das brumas do tempo (colecção particular)

Os Cavaleiros

- Onde vais tu, cavaleiro,
Pela noite sem luar?
Diz o vento viajeiro,
Ao lado d'ele a ventar...
Não responde o cavaleiro,
Que vai absorto a cismar.
- Onde vais tu, torna o vento,
N'esse doido galopar?
Vais bater a algum convento?
Eu ensino-te a rezar.
E a lua surge, um momento,
A lua, convento do Ar.
- Vais levar uma mensagem?
Dá-m'a que eu vou-t'a entregar:
Irás em meia viagem
E eu já de volta hei-de estar.
E o cavaleiro, à passagem,
Faz as árvores vergar.
- Vais escalar um mosteiro?
Eu ajudo-t'o a escalar:
Não há no mundo pedreiro
Que a mim se possa igualar!
Não responde o cavaleiro
E o vento torna a falar:
- Dize, dize! vais p'ra guerra?
Monta em mim, vou-te levar:
Não há cavalo na Terra
Que tenha tão bom andar...
E os trovões rolam na serra
Como vagas a arrolar!
- E as guerras hás-de ganha-las,
Que por ti hei-de velar:
Ponho-me à frente das balas
Para a força lhes tirar!
E as árvores formam alas
Para os guerreiros passar.
- Vais guiar as caravelas
Por sobre as águas do mar?
Guiarei as tuas velas
À feição hei-de assoprar.
E os astros vêm ás janelas
E a lua vem espreitar...
- Onde vais na galopada,
À tua infância, ao teu lar?
Conheço a tua pousada:
Já lá tenho ido ficar.
E vai longe a trovoada,
Vai de todo a aliviar.
- Vais ver tua velha tia,
Na roca de oiro a fiar?
Loiro linho que ela fia,
Ajudei-lho eu a secar!
E o luar é a Virgem Maria...
Que lindo vai o luar!
- Vais ver a tua mãezinha?
Coitada! vi-a expirar:
Tinha a alma tão levezinha,
Que voou sem eu lhe tocar!...
E o cavaleiro caminha,
Caminha sem se importar!
- Vais ver tua irmã? Ao peito
Traz um menino a criar:
Ai com que bom, lindo jeito
Ela o sabe acalentar!
E o vento embala no peito
Uma nuvem, p'ra imitar!
- Onde vais tu? Aonde, aonde?
Fantasma! vais-te casar?
Eu sei da filha d'um conde
Que por ti vive a penar...
E o fantasma não responde,
Sempre, sempre, sempre a andar!
- Vais à cata da Ventura
Que anda os homens a tentar?
(Ai d'aquele que a procura
Que eu nunca a pude encontrar...)
N'isto, pára a criatura,
Faz seu cavalo estacar:
- Vento, sim! Espera, espera!
Que estrada devo tomar?
(É um menino, é uma quimera
E todo lhe ri o olhar...)
E o vento, com voz austera,
Dor, querendo disfarçar:
- Toma todas as estradas
Todas, áquem e além-mar:
Serão inúteis jornadas,
Nunca lá hás-de chegar...
Palavras foram facadas
Que é vê-lo, todo a sangrar...
E seus cabelos trigueiros
Começam de branquear,
E olham-se os dois cavaleiros...
Quedam-se ambos a cismar.
Brilha o Oriente entre os pinheiros,
Ouvem-se os galos cantar...
- Adeus, adeus! Nasce a aurora,
Adeus! vamos trabalhar!
Adeus, adeus! vou-me embora:
Chamaram-me as velas, no mar...
o vento vai por hi fóra,
No seu cavalo, a ventar...



António Nobre, in 'Só' 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015


retrato a carvão da minha mãe  (colecção particular) 

Para Sempre

Por que Deus permite 
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça, 
é eternidade. 
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Lição de Coisas' 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015


Pintura a oléo s/telas Simorgh (1000 mm x 700 mm)



Queria, queria
Ter a singeleza
Das vidas sem alma
E a lúcida calma
Da matéria presa.

Queria, queria
Ser igual ao peixe
Que livre nas águas
Se mexe;

Ser igual em som,
Ser igual em graça
Ao pássaro leve,
Que esvoaça...

Tudo isso eu queria!
(Ser fraco é ser forte).
Queria viver
E depois morrer
Sem nunca aprender
A gostar da morte.


Pedro Homem de Mello, in "Estrela Morta"